
APRENDIZAGENS
APRENDIZAGENS
Era cromada e preta a bicicleta,
Trazia um laço largo no volante circulando
O Natal e rodas generosas
Como parecia o mundo
Eu, na manhã seguinte,
Sem saber sustentar a rota nivelada,
O meu pai a meu lado, segurando o assento,
A sua mão: aceso fio de prumo,
Em acesa confiança
Depois, era-lhe a voz entrecortada
Pelo puro cansaço de correr,
Tentando harmonizar a bicicleta
Hoje, muitos anos depois de gestos paralelos,
A minha filha sobre outras estradas,
A minha mão corrigindo o desvio de mais modernas rodas,
Entendo finalmente que era emoção o que se ouvia
Na voz interrompida do meu pai:
O medo que eu caísse,
Mesmo sabendo que eram curtas as quedas,
Mas sobretudo a ternura de me ver ali,
A entrar no mundo dos crescidos,
Em equilíbrio débil,
Rente à saída circular da infância.
Ana Luísa Amaral
É uma poetisa portuguesa, tradutora e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
(5 -4 - 1956)

