"Jardim dos poetas"
IMPRESSIONISTA
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adília Lopes
POSSO ESCREVER OS VERSOS...
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe."
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na erva o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para a trazer até mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.
A mesma noite que fez branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos
Já não a amo, é certo, nas tanto que eu a amei.
Esta voz procurava o vento para chegar-lhe ao ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é certo, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
A minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Embora esta seja a última dor que ela me causa,
E estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Pablo Neruda, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada
PERFIL
Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico,
É que me mortifico.
Alma perdida,
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.
Miguel Torga

Rosa Vieira comentou:
Adoro a poesia de Miguel Torga.
Albino Ferreira comentou:
Justa e merecida homenagem ao recordar um grande poeta.

