
Pátria
Até ao 25 de Abril de 1974, a escrita e a luta contra a ditadura de Salazar confundem-se na vida de Sophia. Sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos políticos, candidata pela oposição democrática em 1969, o Livro Sexto (1962), que integra este poema, exprime um pungente anseio de liberdade num país que proibia e perseguia, numa pátria que era, afinal, para homens e mulheres, um lugar de exílio.
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pala limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen

